Afinal, o que é essa representatividade que tanto se fala?

O Não Me Critica hoje recebe a professora Natália Regina, que faz uma reflexão sobre a representatividade e o que ela representa de fato.

, por Não Me Critica

Afinal, o que é essa representatividade que tanto se fala?

O Não Me Critica hoje recebe a professora Natália Regina, que faz uma reflexão sobre a representatividade e o que ela representa de fato.

, por Não Me Critica

A representatividade está sendo definida nos dicionários como “qualidade do representativo”, ou seja, aquele que pode e tem condições de falar sobre uma determinada causa ou grupo. Porque a representatividade negra ainda gera certo incômodo ou questionamento quando de fato ela acontece?

Bem, recentemente eu fiz parte de uma mesa onde discutíamos as relações étnico-raciais no ambiente de trabalho. Sou professora de artes visuais e, no colégio que trabalho, tem um quantitativo bem diferenciado no que diz respeito à negras/negros nos setores principais da educação quando vemos uma maioria em serviços essenciais. Calma, antes de pensar “será que é desmerecedor ter um trabalho digno, de carteira assinada e dentro da lei?”, vamos levar essa observação para o outro lado, onde está quase que determinado que as pessoas negras tenham esses cargos como a melhor opção, já que as mesmas não tiveram condições de estudar ou se qualificar melhor por ‘n’ problemas que fazem parte da conjuntura de nossa sociedade carioca e brasileira.

Os estereótipos que são fadados às pessoas negras dificultam muito a sua relação com o mundo que vivemos. Na minha área, por exemplo, é extremamente comum vermos crianças negras, quando não se vêem representadas, terem a auto-estima baixa, apresentarem maiores dificuldades de aprendizagem e caírem no mal habito de dizer que a escola não é lugar para elas (e aonde seria então?), já que tudo que recebem são ordens, broncas, ofensas, e os espaços de diálogo se reduzem cada vez mais até essa criança abandonar por completo a possibilidade de estudar. Quando esses jovens se afastam de um campo onde a possibilidade de fazer escolhas se torna maior, essa condição deixa de existir, restando apenas àquilo que possa manter e sustentar suas condições básicas. Representatividade, lindezas, nesse contexto, é que nossas crianças negras possam se ver dando aulas, trabalhando em setores administrativos ou em espaços acadêmicos, por estarem representadas naquele espaço e, assim, se sentirem confortáveis pela diversidade daquele ambiente, estejam em comerciais, em filmes, em videoclipes, em séries — por reconhecerem naquele tipo de produto —, em sua história, em seus processos de produção, na mensagem que desejam passar.

Num país onde 54% da população se declara negra, segundo o IBGE/Senso 2010, precisamos de uma lei (a nível de conhecimento, 10.639/03) que garanta que a história da cultura afro-brasileira e africana sejam ensinadas, representadas e devidamente executadas em suas atividades. Nas linguagens artísticas e históricas é sinal precisamos caminhar um longo percurso onde a persuasão, consciência e sapiência se façam presentes.

“Mas Natália, depois disso tudo, chego a conclusão de que então é vergonhoso uma criança negra querer ser faxineira, diarista ou copeira?” Não, vergonhoso é quando colaboramos com o fato de que essa criança pode ter apenas essas opções na vida. A representatividade começa quando nos conhecemos e procuramos reconhecer os semelhantes a nós. Essencial que se reconheça e respeite isso, já que a representatividade busca contemplar e respeitar as diferenças em suas múltiplas e plurais facetas, já que igualdade não é um conceito que possa definir a nossa sociedade.

Encerro a reflexão com a seguinte situação que vivi no meu segundo ano de docência, e primeiro nesse colégio que ainda trabalho: um dia encontrei com a mãe de uma das minhas alunas. Ela veio toda entusiasmada perguntando se eu era a Tia Natália, das aulas de artes, pois a filha dela desde então estava bem mais entusiasmada com as aulas e as atividades propostas. Eu fiquei super feliz em ouvir isso, afinal era meu primeiro ano trabalhando com o Ensino Fundamental I. A mãe, bem empolgada, me explicou o motivo da mudança de comportamento da filha: “Professora, Dandara (nome fictício) disse para mim que a professora dela era neguinha igual a ela. Desde então, o mundo dela nunca mais foi o mesmo, ela passou a ver as coisas de outra forma. Parece que ela se viu em você.”

E meu mundo também mudou bastante, Dandara! Como me vi em suas palavras.
Seguimos… Ubuntu!

Natália Regina é professora do Ensino Fundamental e negra.

  • Natália Regina

    Muito obrigada, equipe do #NMC2017 pela oportunidade! Consciência e serenidade sempre!

    • Vanessa Santos

      Nós do NMC que agradecemos a sua participação Natalia Regina. E fique a vontade para participar sempre!
      Bjão! 🙂

    • Thiago Arzakom

      Nós que agradecemos a sua participação neste lindo texto Natalia!
      Fique a vontade para participar mais vezes com a gente!
      Bjão! 🙂

  • Daniela Frida Drelich

    Parabéns querida Natália:))

    • Natália Regina

      Muito obrigada, Daniela ❤