Coluna do Frank | A forma do Oscar

Acabou a temporada. De ‘forma’ feliz para muitos, triste para tantos outros, o diretor Guillermo Del Toro saiu campeão em duas categorias principais.

, por Francisco Carbone

Coluna do Frank | A forma do Oscar

Acabou a temporada. De ‘forma’ feliz para muitos, triste para tantos outros, o diretor Guillermo Del Toro saiu campeão em duas categorias principais.

, por Francisco Carbone

Olá pessoal!

Acabou a temporada. De ‘forma’ feliz para muitos, triste para tantos outros, o diretor Guillermo Del Toro não foi voto numa categoria só e saiu da festa de domingo com as duas categorias principais e um sorriso estampado. ‘A Forma da Água‘ é o primeiro filme em 4 anos a ganhar filme e direção, ironicamente o primeiro desde seu grande amigo Alejandro González Iñarritu ter feito o mesmo com ‘Birdman‘; agora os três amigos mexicanos tem bonecos em casa, o terceiro sendo Alfonso Cuaron por ‘Gravidade‘. Del Toro a essa altura está respirando aliviado, já que seu favoritismo era exclusivo a categoria de direção, e ele teve que brigar com candidatos peso pesados na principal.

Mesmo sem ter adquirido status de blockbuster, a fábula de Del Toro é o mais próximo disso que um vencedor do Oscar chega desde ‘Argo‘, que chegou aos 150 milhões de dólares só em solo americano. Depois dele, tivemos 4 vencedores indies que sempre tiveram arrecadações modestas, onde o ápice foi o anterior ‘Moonlight‘, que não chegou a fazer 30 milhões e foi considerado o segundo filme de menor bilheteria na história da categoria. ‘A Forma da Água‘ deve encerrar sua carreira americana com cerca de 70 milhões, e um acumulado do dobro no resto do mundo. Se ainda não foi o suficiente para voltar a colocar o Oscar num patamar popular, ao menos o saldo foi positivo e ascendente nesse sentido. O filme também foi o primeiro vencedor em 13 anos a ser protagonizado por uma mulher; que não demore outros 13 para isso acontecer.

Quanto às questões políticas que todos esperavam ver com as possíveis vitórias de ‘Corra!‘ ou ‘Três Anúncios para um Crime‘, erra quem diz que não a viu no filme vencedor. Ora bolas, a história de uma mulher sem voz, que se une a uma amiga negra e ao seu vizinho homossexual, e esse trio trata de libertar um ser aquático que tem suas características exploradas por uma agência americana controlada por um homem branco de meia idade trás em si, somente por essa sinopse, um aspecto de militância extremamente óbvio e abrangente, que coloca a bela produção como um acerto ao ser premiado na consonância do nosso tempo e do ano que se passou. Um filme que trata não apenas de uma voz que não é ouvida, mas de várias em várias categorias diferentes, mas que encontram a chave da mudança na união e no amor, como resultado do esforço coletivo e da bravura de que somente quem é atingido pelo preconceito diariamente tem noção e pode calcular. Uma vitória política e justa a um filme que coloca a fábula de volta ao aspecto contestador e não apenas como um exemplo de beleza e fofura.

 

Nas categorias de roteiro, mais política. ‘Corra!‘ e ‘Me Chame pelo seu Nome‘ ganharam como original e adaptado e provaram a força do cinema de gênero e das narrativas LGBTQs, dois dos mais merecidos prêmios do ano. O quarteto de atuação há 2 meses peregrinava de premiação em premiação arrastando troféus: Frances McDormand, Gary Oldman, Alisson Janney e Sam Rockwell foram unanimidades (ainda que injustas), com desempenhos fortes e polêmicos que arrebataram a todos no fim das contas. O melhor discurso da noite mais uma vez inclusive veio da própria Frances, na sua segunda vitória no Oscar (a primeira há 20 anos atrás por ‘Fargo’), que conclamou a união das mulheres, que elas ficassem de pé na plateia e que os executivos guardassem seus rostos, porque elas tinham projetos a apresentar e gostariam de ser recebidas em seus escritórios. De fato o momento mais bonito da noite.

O México ainda marcou outro gol, com a vitória da animação ‘Viva!‘ na sua categoria e em canção também, um filme passado no país e parcialmente falado em espanhol, assim como a música tema. Mas o país de Frida Kahlo ainda deu um jeito de puxar o Chile para a festa de domingo, com a vitória de ‘Uma Mulher Fantástica‘ como filme estrangeiro e a presença da protagonista Daniela Vega na festa apresentando uma categoria, abrindo as portas para a primeira atriz trans estar no palco da maior premiação de cinema do mundo.

Ou seja, se isso tudo não foi política feito na maioria dos envelopes abertos no domingo, eu não sei dizer o que foi. Uma noite onde rendeu até uma alfinetada na Rússia, na vitória do documentário ‘Icarus‘, que mostra como os casos de dopings esportivos dos esportistas russos foram causados com o conhecimento do governo do país. Sobrou política, mas também sobrou emoção e muita justiça num ano cheio de indicados poderosos e vencedores na sua imensa maioria muito acertados. Ano que vem vai ser difícil de se manter nesse nível, Academia…

Semana que vem tem mais coluna então, cheia de novidades e cheia de estreias. Até lá!