Leitores em série | Machismo Camuflado

Sim, ainda há um machismo nas séries de TV. Muito menos evidente, claro, mais ainda claro o bastante para que a gente perceba. Vamos discutir isso!

, por Laura Vidaurreta

Leitores em série | Machismo Camuflado

Sim, ainda há um machismo nas séries de TV. Muito menos evidente, claro, mais ainda claro o bastante para que a gente perceba. Vamos discutir isso!

, por Laura Vidaurreta

Nossa, ela tá polêmica, ela! Juro que não, gente. Ou talvez esteja, quem sabe? Mas vejo observado o nosso querido mundo das séries e tenho visto, se de um lado, as coisas mudaram pra melhor e a mulher tem cada vez mais espaços e se tornaram figuram independentes, que não dependem de interesse amoroso masculino para desenvolver suas tramas, por outro, algumas coisas continuam iguais. Ou, pior, camufladas.

Vejam bem, essa é uma coluna sobre a minha opinião. Não estou querendo enfurecer nenhum fandom, nem começar uma caça às bruxas e (Deus me Dibre) começar um boicote ou uma famigerada petição (como eu tenho ranço de petição), o que eu quero aqui é propor um debate para sabermos se, de fato, as personagens femininas estão ganhando seu devido espaço e devido respeito.

Claro, existem séries em que o machismo e o sexismo fazem parte do plot principal. Mad Men era uma série sobre uma empresa de publicidade na década 60, onde os homens dominavam o mercado. Personagens como as de Peggy e Joan precisavam matar um leão por dia, se quisessem ser ouvidas ou respeitadas. Two And A Half Men era outra série em que o machismo e a objetificação da mulher eram o tema principal. Charlie era um porco, mas isso estava na sinopse, você assistia a série sabendo disso. Diminui o problema? Claro que não! Mas pelo menos era uma série que não enganava ninguém.

A questão aqui são séries que têm o machismo incutido e disfarçado, e que acabam passando despercebido.

Um grande exemplo disso é The Big Bang Theory. O tema principal são os quatro amigos nerds, mas o que acaba chamando a atenção é o tratamento machista dado às personagens femininas.

Temos Amy, que é neurocientista, mas que acaba tendo como função principal ser noiva (e babá) do Sheldon. Com Bernadette acontece a mesma coisa. Agora até estamos acompanhando um plot bacana, em que ela pondera sobre a carreira e a maternidade, coisa que acontece com a maioria das mães que trabalham fora. Mas, assim como Amy, Bernadette tem um marido que mais parece filho e a vemos mais com tramas envolvendo Howard do que seu lado profissional. Mas o pior acontece com Penny. Sim, Penny entrou na série para ser a vizinha bonita e burra, que fazia contraste com os vizinhos gênios. Mas Penny evoluiu ao longo de 11 temporadas. Hoje ela tem um emprego fixo (onde, inclusive, ganha melhor que marido), se tornou uma mulher independente e bem sucedida, mas continua sendo tratada como a loura burra. Acho que não há um só capítulo em que Penny não é diminuída diante dos personagens masculinos. E para completar, óbvio, como toda a história de que mulher não gosta, não entende e não tem paciência para HQ, filmes de super-heróis, vídeo games e tudo que envolve o mundo nerd.

Bem, se vocês estavam achando tudo muito tranquilo até agora, está na hora de entrarmos em águas mais turbulentas, ou melhor, em algo mais sobrenatural. Sim, meus queridos, estou falando de Supernatural.

Não me entendam mal, eu não acho problema nenhum em uma série apenas com protagonistas masculinos. A série é sobre dois irmãos lutando contra as forças do mal. Beleza! Sem problema nenhum. Mas vocês já pararam para notar, ou melhor, contar, quantas personagens femininas foram mortas na série. Não estou falando de figurantes ou do caso da semana, estou falando de personagens coadjuvantes, que tiveram um papel relevante na serie. Vamos fazer uma contagem rápida:

1 – Mary (calma, voltaremos nela)

2 – Meg (1 e 2, porque sim, tiveram 2 Megs e as duas morreram)

3 – Ruby

4 – Jo Harvelle

5 – Ellen Harvelle

6 – Bela Talbot

7 – Pamela Barnes

8 – Anna Milton

9 – Abaddon (tudo bem, ela era uma das vilãs principais, mas vai entrar na lista assim mesmo)

10 – Amelia Novak (okay, ela apareceu pouco, mas é importante o suficiente para traçar a história da Claire)

11 – Linda Tran (Mãe do Kevin)

12 – Missouri (a vidente)

13 – E (por último, mas não menos importante e doloroso) Charlie Bradbury.

Aí vocês vão me dizer “Ah, Laura, mas eles trouxeram a Mary de volta”, e eu vou perguntar: Pra quê? O que ela fez de relevante até agora? Trouxeram de volta, pois o Dean sentia falta da mãe, mas a presença dela ainda não significou quase nada pra jornada deles. Além do fato de que agora ela tá presa em outra dimensão e aparece episódio não e no outro muito menos. Supernatural tem um longo histórico de violência e morte contra personagens femininos e não sou eu que estou falando, já rolaram discussões, fóruns, artigos e até declarações dos próprios atores da série em relação a isso.

Outra série que costuma eliminar com certa frequência suas personagens femininas é NCIS.

A primeira personagem principal a morrer foi a Agente Kate Todd, no final da segunda temporada. Na quarta temporada foi a vez da Agente Paula Cassidy. A Diretora Jenny Shepard foi morta na quinta temporada. Na décima temporada sobrou até pra Jackie, esposa do Diretor Vance, que foi morta em casa, durante um ataque. Na 12ª temporada, foi a vez de Diane, ex-mulher, de Gibbs ser morta. Fato curiosamente mórbido: Diane foi morta da mesma forma que Kate. E, pra terminar, no final da 13ª temporada, ficamos sabendo da morte de Ziva (a atriz Cote de Pablo deixou a série no início da 11ª). Desde que havia deixado o NCIS, Ziva vivia em Israel, em uma vida, aparentemente pacata, até um ataque terrorista tirar sua vida e, por consequência, revelar a Tony que os dois tinham uma filha juntos. Mas enfim, o foco não é esse…rsrsrs! A questão é que NCIS também matou seis personagens femininas principais.

Sim, eu posso estar problematizando, eu tenho a tendência a fazer isso, mas eu não posso evitar me perguntar por que ainda incentivamos estereótipos machistas ou porque tantas personagens fortes são mortas em suas séries.

Mas não temam, por nem tudo está perdido. Enquanto continuamos vendo as mesmas coisas se repetindo na telinha, por trás das câmeras as coisas estão mudando e pra melhor. Cada vez mais temos mais mulheres showrunners, mulher na produção de séries e mulheres na direção. Ellen Pompeo e Chandra Wilson já comandaram o show por de trás das câmeras em episódios de Grey’s Anatomy. Chandra, inclusive, já dirigiu um episódio de Scandal. Ainda em Grey’s Anatomy, Debbie Allen, a Dra. Katherine Avery, já comandou diversos episódios e ainda pretende incluir mais em seu currículo como diretora. Amy Poehler dirigiu três episódios de Parks And Recreation. Mindy Kaling dirigiu um episódio de The Office. Emmy Rossum esteve por trás das câmeras em um dos episódios de Shameless, assim como Zooey Deschanel, que comandou um episódio de New Girl. Kerry Washington fez sua estreia atrás das câmeras em um dos últimos episódios da temporada final de Scandal. Enquanto Gina Rodriguez dirigiu um episódio da quarta temporada de sua Jane The Virgin.

A conclusão dessa coluna? Sim, ainda há um machismo camuflado, escondido no meio das produções de TV, mas estamos caminhando, estamos quebrando esses estigmas, derrubando essas barreiras diariamente, até que haja cada vez mais igualdade.

Então, o que você acha disso tudo? Há um machismo escondido na TV? Ou faz tudo parte uma grande problematização? Vamos debater! Deixe seu comentário.