Leitores Em Série | Na Real

As séries também falam de coisa séria.

, por Laura Vidaurreta

Leitores Em Série | Na Real

As séries também falam de coisa séria.

, por Laura Vidaurreta

Séries de TV são um universo em que, geralmente, mergulhamos para escapar um pouco da vida real. Comédias românticas, sitcoms e tramas fantasiosas nos fazem relaxar e esquecer um pouco dos problemas que precisamos enfrentar no nosso dia a dia. Mas ás vezes as séries também servem como um espelho para refletir temas que fazem parte do nosso cotidiano e nos dar uma nova perspectiva de assuntos um tanto polêmicos, difíceis e que, muitas vezes, são negligenciados.

Ás vezes o tema não faz parte da premissa da trama, como na comédia Black-ish, que abordou a depressão pós-parto no segundo episódio da nova temporada. Bow, personagem da ótima Tracee Elis Ross, sofre para se conectar com seu bebê e lidar com a ansiedade e tristeza incapacitantes que surgiram após o nascimento do caçula, mas com a ajuda do marido e dos filhos, a mulher consegue reunir forças para buscar ajuda. Já em Mom, o alcoolismo e o vício em drogas são temas recorrente da série e quase sempre são tratado de forma leve e divertida, com exceção de episódios em que há algum tipo de recaída, como aconteceu com Jodi.

Glee foi outra série a lidar com diversos temas pesados durante suas seis temporadas. O personagem de Chris Colfer, Kurt, sofreu com homofobia durante boa parte da série, mas a situação ficou bem difícil para o garoto, quando o valentão Dave Karofsky começou a persegui-lo, chegando, inclusive, a ameaçar sua vida. Em uma virada chocante, foi revelado que a origem do ódio de Karofsky por Kurt era devido à homossexualidade enrustida do personagem. A exposição foi tão esmagadora para o valentão, que o rapaz chegou a tentar o suicídio, sem sucesso, felizmente. Mas, sem dúvida nenhuma, o tema mais difícil pra série foi o luto. Com a morte do ator Corey Monteith, seu personagem na série, Finn, também foi a óbito. Em um episódio especial da quinta temporada, os alunos do colégio McKinley High lidaram com o luto da perda de Finn, ao mesmo tempo em que os atores e os fãs lidavam com a perda de Corey.

 

Hoje em dia temos diversas séries no ar que tratam de temas que, cada vez mais, fazem parte da nossa realidade. Hoje nós vamos conhecer algumas delas.

 

Dear White People (Racismo)

Baseado no filme homônimo de 2014, Dear White People, ou Cara Gente Branca, é um belo soco no estômago de quem acha, ou prefere fingir, que o racismo não existe. A série gira em torno de um grupo de estudantes negros, em uma universidade predominantemente branca, que precisa lidar com racismo dentro do campus. As tensões se agravam depois de uma festa de Halloween com o tema “blackface” organizada por um grupo de estudantes brancos.

No nosso país, de maioria negra, ainda é bem complicado discutir racismo. Existem aqueles que, não só acreditam, mas defendem que racismo é vitimismo, mas basta assistir alguns episódios de Dear White People para ver que há sim, um abismo entre brancos e negros. Talvez o melhor exemplo seja a cena em que Reggie discute com um colega branco, depois que o rapaz diz a palavra nigga, um termo totalmente ofensivo. Durante a discussão, alguém chama a polícia e o tratamento dado aos dois estudantes é completamente diferente. O policial que aborda Reggie, não só pede sua identidade, duvidando que o rapaz seja aluno da universidade, como aponta uma arma para o estudante. Uma cena chocante e bem difícil de assistir, mas que, infelizmente faz parte da realidade de homens e mulheres negros pelo mundo. Dear White People já foi tema do nosso podcast. Clique aqui e confira!

 

This Is Us (Obesidade)

Parece que eu não consigo parar de falar de This Is Us, né? Pois é, não consigo mesmo! Essa série maravilhosa é uma fonte inesgotável de tópicos para essa coluna. This Is Us aborda vários temas cotidianos, como alcoolismo, racismo, adoção, luto, entre outros. Mas é com a personagem Kate que a série toca mais no coração do público. Kate, a única menina dos trigêmeos, sempre sofreu com o sobrepeso, mas o amor de seus pais a blindaram durante grande parte de sua infância. Com a morte do pai e o peso da culpa, a jovem começou a usar a comida como compensação, até se ver com 36 anos e obesa mórbida.

Além de ter que lutar contra a imagem que via no espelho, Kate precisava lutar com os sentimentos conflitantes que sentia pela mãe. A aspirante a cantora passou boa parte da vida ressentida pela mãe, que representava tudo que ela gostaria de ser: uma cantora extremamente talentosa e, acima de tudo, magra. Kate vai buscar ajuda em um grupo de suporte para pessoas com sobrepeso e, como ironia do destino, acaba encontrando o amor em Toby, forçando Kate a aprender a se amar, para poder se permitir ser amada por alguém.

 

Atypical (Autismo)

Não é a primeira vez que vemos o autismo reproduzido na TV. Em Parenthood, Max, o filho caçula de Adam e Kristina Braverman era portador da Síndrome de Asperger, o que dificulta seu relacionamento com outras pessoas e transforma completamente sua convivência familiar. Apesar de complicado, a série tratou do tema com a maior delicadeza possível. Parenthood chegou ao fim em 2015, e hoje, dois anos depois, temos uma nova série abordando o autismo.

Se em Parenthood, a chave para a adaptação de Max era o suporte familiar, em Atypical, vemos o protagonista sair um pouco de sua zona de conforto e se preparar conquistar sua própria independência. Aos 18 anos, aconselhado por sua psicóloga, Sam resolve arrumar uma namorada e isso o leva a uma jornada de descoberta de um mundo longe da superproteção de sua mãe. Mas antes de ser autista, Sam é adolescente, e seu maior desejo é ser aceito, como qualquer um de sua idade. E em sua missão de conquistar, não só um amor, mas seu lugar na sociedade, Sam acaba mexendo com toda sua família, que vê sua dinâmica se transformar e agora precisa descobrir que rumo tomar já que o garoto já não exige mais tanta atenção e cuidado. Além de desmistificar o autista como alguém inacessível e incomunicável, a série também serve como lição para todos que preferem varrer para debaixo do tapete assuntos com que não conseguem lidar.

 

13 Reasons Why (Bullying)

13 Reasons Why não é uma série sobre suicídio, e sim uma série sobre o que leva uma pessoa a achar que a única saída é tirar a própria vida. Eu vejo muitas pessoas acima dos 30 anos dizer que bullying não é justificativa para atos desesperados, como usar a violência como resposta. O problema é que, há 20, 30 anos atrás, o bullying se limitava aos muros da escola. Eu mesma, durante boa parte da minha vida escolar, fui vítima de bullying. Cheguei a pedir, aos prantos, para minha mãe me deixar sair da escola. E olha que as únicas provocações que eu ouvia eram sobre meu peso e o fato do meu cabelo não ser liso. Hoje em dia, tudo mudou. O bullying atravessou os portões das escolas e chegou às redes sociais. Não existem mais apenas provocações, existem perseguições, humilhações públicas e ameaças. E as vítimas não encontram proteção e apoio nenhum lugar.

Foi exatamente o que aconteceu com Hannah Baker. À primeira vista, você nunca diria que Hannah seria mais uma vítima do bullying. Bonita, inteligente, sempre com respostas rápidas e ácidas, a menina não tem o perfil de alguém sofreria bullying, muito menos de alguém que acabaria se suicidando por conta disso. Mas o que acontece com a garota é uma sucessão de eventos que, aos poucos, vai minando sua autoestima e destruindo seu psicológico, a ponto dela não ver saída a não ser tirar a própria vida, deixando pra trás um relato das razões que a levaram a fazer o que fez. Mas a série não conta só a história de Hannah, ela também aborda as várias camadas de cada uma das pessoas que a garota lista como sendo as responsáveis por seu suicídio. E seria muito fácil para o espectador demonizar essas pessoas, transformando-os em vilões absolutos, mas não é isso que acontece. Sim, temos pessoas de caráter altamente duvidoso, mas também temos personagens que possuem seus próprios demônios e que propagam aquilo que o ambiente a sua volta lhe deu. 13 Reasons Why é um choque de realidade que te fez questionar se é, ou já foi, Hannah ou uma das razões.

 

Transparent (Transexualidade)

Não é novidade para ninguém que o Brasil é um país de contrastes. Ao mesmo tem em que somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo (em 2016 foram 127 assassinatos, um a cada três dias), também somos o país da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, com a Parada LGBT de São Paulo, que já chegou a receber três milhões de pessoas na edição de 2011. Enquanto vemos uma vertente altamente conservadora tomando conta do cenário político brasileiro, também temos a modelo Lea T e a cartunista Laerte na lista de profissionais mais influentes em suas áreas. E esses contrastes têm inflamado ainda mais as discussões sobre homofobia e transfobia.

E é por isso que séries como Transparent são de uma importância sem tamanho para a atualidade. Em sua quarta temporada, a série conta a história de Morton Pfefferman, um professor universitário aposentado, que finalmente resolve revelar para a família ser uma mulher transexual. Obviamente, os filhos recebem a notícia com um enorme choque, mas quem não receberia? Ver seu pai, ou sua mãe, que você conheceu e conviveu a vida inteira, de repente, passar a se identificar com outro gênero é de embolar a cabeça de qualquer um. Mas a questão é, não foi de repente, nem de uma hora pra outra. Quando Morton, agora Maura, resolve se abrir com os filhos, essa é uma decisão com a qual ele vem lutando durante anos, se não, décadas. Isso fica claro na cena em que Maura conversa com a filha mais velha e essa lhe pergunta se o pai passará a se vestir como mulher o tempo todo, e Maura responde “Não, querida. Eu me vesti de homem a minha vida toda. Essa sou eu.”. A simplicidade e delicadeza da frase, aliadas com a interpretação de Jeffrey Tambor, que com um simples suspiro, consegue passar o alívio de Maura em poder, finalmente, ser a pessoa que ela sempre quis diante dos filhos e da sociedade, é absolutamente emocionante. Não é a toa que Jeffrey ganhou dois prêmios Emmy e um Globo de Ouro com o papel.

Entender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero nem sempre é fácil, mas aceitar, apoiar e, acima de tudo, respeitar, podem fazer a diferença para alguém que está em processo de transição.

 

E aí, gostou da nossa coluna? Tem mais alguma série que trata de assuntos cotidianos e que não entrou nessa lista? Deixe seu comentário!