“Prevenção pelo amor”, por Salvador Correa

O psicólogo e mestre em Saúde Pública se aprofunda no debate sobre sexo sem camisinha com exclusividade para o NMC.

, por Não Me Critica

“Prevenção pelo amor”, por Salvador Correa

O psicólogo e mestre em Saúde Pública se aprofunda no debate sobre sexo sem camisinha com exclusividade para o NMC.

, por Não Me Critica

No episódio #168 do NMC, demos olhares diferenciados para a prática do sexo sem camisinha, questionando alguns estereótipos criados pela sociedade para a prática do chamado bareback. Utilizamos como base um texto do site Flesh Magazine, que, dentre outras coisas, desmistificava o preconceito envolvido com o tema.

Salvador Correa, psicólogo e mestre em Saúde Pública, autor do texto, entrou em contato com o NMC e nos ajudou ainda mais com o assunto. Em nossa fan page, se aprofundou no tema com um comentário super esclarecedor. Aqui para o blog, gentilmente cedeu suas palavras para que o mundo tenha conhecimento e abra mais a mente. Confira!

* * * * *

Olá! Muito obrigado por trazerem esse relevante debate. Acho que esses pontos dariam mil horas de conversa. É importante deixar claro que em nenhum momento o texto incentiva o “não uso” do preservativo, e sim aborda a prevenção (alinhada com o conhecimento científico) para um grupo específico que não usa.

Sem sombra de dúvidas a camisinha é a forma de prevenção que mais previne contra várias DST, como foi falado no meu primeiro artigo – que também traz outras formas de prevenção. É fato que muitas pessoas não a usam por motivos variados – e nenhum desses motivos deve servir de fomento a qualquer tipo de julgamento, pelo simples fato desse não ser papel da saúde – mas sim do judiciário.

Os argumentos conservadores que pautam uma condenação dos adeptos do Barebacking afastam pessoas de adotarem alguma forma prevenção e também os afastam dos serviços de saúde. Acredite, não é incomum as pessoas serem discriminadas nos serviços de saúde por suas práticas sexuais, orientação, identidade; muitas pesquisas da saúde apontam para isso. Só para citar um exemplo, recentemente o estudo Transcender, da FIOCRUZ, criou um ambulatório específico para as pessoas trans, justamente por terem recebido muitos relatos de péssimos atendimentos. Você voltaria em um serviço que se te maltratassem? Imagina se o governo lançasse uma nota “condenando” qualquer comportamento seu? Foi isso que aconteceu.

Nós, como sociedade, naturalizamos tanto a crítica às pessoas que não usam camisinha que isso nos engessa e nos impede de pensar (em conjunto com as pessoas “alvo” das ações) novas formas de prevenção que inclua não apenas o conhecimento científico, mas também o conhecimento social, e das comunidades. São raros os esforços do governo e da sociedade civil que discutem francamente possibilidades de prevenção com barebackers, por exemplo. Normalmente tendemos a querer decidir pelas pessoas como se isso fosse possível, numa espécie de hipnose – ou ditadura, ignorando os sentimentos e desejos delas, para quem essas ações são criadas. Não foi sempre assim.

A camisinha como prevenção ao HIV surgiu pelo amor, exatamente no momento que a ciência pregava abstinência sexual em relações com soropositivos. Pelo amor, os parceiros negativos começaram a usar camisinha com seus companheiros positivos. Quando o saber médico assume a camisinha como eficiente a partir dessas experiências ele começa a “prescrevê-la” como prevenção. As comunidades precisam resgatar seu papel na prevenção. Precisamos exercitar mais a capacidade de nos colocar no lugar do outro, exercendo a solidariedade. Não cabe a ninguém julgar as pessoas por suas práticas sexuais, nem orientação. O papel do governo e da sociedade civil deve ser o de garantir acesso à saúde de forma plena – que é um direito constitucional de TOD@S, sem nenhuma distinção – incluindo os barebackers.

Algumas formas interessantes de ações voltadas para o público adepto do “bare” ou qualquer outra prática que pode expor a alguma infecção precisa passar pela informação – sim alinhadas com o conhecimento científico – e pelo acesso aos métodos de prevenção. As pessoas precisam de uma decisão com base na informação, o que não significa que possamos decidir por elas. Pessoas informadas, com clareza sobre suas opções, poderão adotar alguma forma de prevenção – decisão informada como chamamos na saúde pública. Práticas higienistas do século passado – como é o caso dessa condenação do governo aos praticantes do “bare” – não faziam sentido nem na década de 1980 (a prevenção pelo medo se mostrou ineficaz, basta olhar os dados epidemiológicos – 1.900.000 pessoas infectadas no mundo só em 2015).

A prevenção pelo medo faz ainda menos sentido diante de tantas novas informações e formas de prevenção. Precisamos ir além do “use camisinha” e utilizar dos avanços da medicina e das tecnologias. O Brasil precisa incorporar a PrEP imediatamente. Já lideramos o ranking de novas infecções na América Latina e Caribe. Vergonha! Se não mudarmos nossa forma de pensar e agir no campo da saúde, além de legitimar visões ultrapassadas que violam direitos (no caso o direito de acesso à saúde) estaremos fadados a continuar no fracasso da prevenção, como vemos nos últimos anos.

A forma de “prevenção pelo medo” é incipiente para controlar a epidemia. Precisamos exercitar a experiência da “prevenção pelo amor”, e deixar emergir as vozes das comunidades/público alvo. Prevenção para tod@s!!!